Meu primeiro choro já aconteceu
quando eu nasci (obviamente), e se chorei pra vir a esse mundo sinal de que já
sabia que as coisas não seriam tão fáceis e agradáveis como na barriga da
mamãe.
Quando abri meus olhos só confirmei
o que me esperava: uma caminhada assustadoramente bela. Assustadora e bela,
melhor.
Quando bem pequenina eu já sabia o
que eu queria. O problema é que cresci e agora não sei mais de nada.
Quando criança tudo o que eu mais
queria era ser independente, hoje, em alguns momentos o que eu mais queria era
ter um colo e poder deitar nele, chorar, contar dos meus medos e dos meus
desejos. Alguns tão bobos que nem parece que não tenho mais 8 anos.
Complicado crescer e perceber que
muita coisa já não faz mais sentido e que algumas coisas mesmo que não façam
sentido, você terá de aceitá-las como são. E pior ainda, sem poder ter qualquer
ação sobre. Essa sempre foi a parte assustadora.
Mas não posso desmerecer algumas
partes belas. Como seria a vida se não existissem os sorrisos? O abraço quente.
O chocolate quente. Só o chocolate bastaria. E aquele papo interminável com
aquelas pessoas tão incríveis? Nem falam nada, mas me fazem rir, e pra mim é o
suficiente. Uma amizade nova, uma irmã nova, uma boa noite de sono, um gatinho
de estimação, oh que belo isso!
O que sei é que a vida é feita de
constantes e drásticas mudanças. Às vezes não tão constantes, nem tão
drásticas, o certo é que tudo muda, o tempo todo.
Aquela boutique que eu amava
comprar roupas, hoje eu acho a mais brega da cidade. Aquela rua que era o “point” da moçada, hoje
só os banquinhos ocupam a calçada.
Hoje eu sei cozinhar, sei dirigir
bem, sei trocar pneu (só me falta força), sei arrumar a minha cama sem deixar
dobras, sei fazer bolo de cenoura, sei costurar. Sei ignorar e sei cuidar.
No carro ouço todo tipo de música,
tenho um pouco de receio de me prenderem um dia no trânsito por acharem que
alguém com distúrbio mental não tenha habilidade para dirigir. Sou (um pouco)
assim ouvindo minha música predileta no trânsito.
Poucos sabem, mas sei cantar e
dançar. Não canto como a Madonna e nem danço como Carlinhos de Jesus, mas já
fui soprano no coral municipal e aluna de jazz. Saudades eu sinto.
Hoje eu sei que sofrer de amor não
mata, que toda dor passa e que se entregar ao sofrimento é a maior bobagem. Sei
também que sentir saudades de alguém é mais sofrido do que se imagina. É uma
dor tão inexplicável que só sentindo mesmo.
Eu pensava que sabia tudo sobre o
amor, mas não sabia o principal, que ele também termina. E aí depois disso você
se perde. Perde o controle. Ganha alguns pontos mal costurados na alma e uma
cicatriz, que fica ali. Tenho algumas, umas mais profundas, outras menos.
Não gosto de filme de romance
porque odeio me iludir desnecessariamente, prefiro acreditar que existem super
heróis iguais aos do filme, do que acreditar que no final o casal fica junto e
é feliz para sempre. Dispenso. Também não gosto de filme de terror, tenho a
impressão que diminui a vida útil do meu coração em alguns anos.
Não gosto de TV no quarto e pela
manhã respondo no máximo um bom dia e aconselho que fale comigo apenas após o
meio-dia, é mais seguro.
Ando preferindo cultivar amizades.
Coloridas. Cores quentes são minhas prediletas.
Já rabisquei o amor e pintei-o de
cinza. Vermelho não vinha me agradando muito. Hoje to assim, mais colorida,
nada de monotonia.
Ser independente não é bem o mar de
rosas que eu imaginava. Na minha imaginação não tinham contas presas nos imãs
de geladeira, nem uma pia de louças para lavar. Por outro lado não tem a minha
mãe gritando para eu pegar o tênis que eu esqueci no meio da sala, nem para
jogar o pedaço de pizza que esqueci na geladeira no sábado passado. Detalhes
tão pequenos.
E venho assim, compondo um dia após
o outro com detalhes.
Aprendendo, me surpreendendo. E me
surpreendo todos os dias. Basta abrir meus olhos.
Maíra


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